Finitude

A queda do avião da Chapecoense foi a tragédia mais doída que tive que cobrir no meio esportivo. Tinha dois grandes amigos no voo e muitos conhecidos. Os que não conhecia pessoalmente parecia que faziam parte do meu dia a dia, já que acompanho futebol e já os tinha visto várias vezes em ação. Inclusive no domingo anterior ao acidente e na quarta, quando Danilo fez aquela defesa sensacional que levou o time à final. E à Colômbia, por ironia do destino.

Como tenho insistido, espero que a investigação seja levada a sério e vá a fundo, porque não se brinca com vidas humanas. E também temos que entender qual a relação dessa companhia aérea com times e federações da América do Sul.
As vidas que se foram não voltam mais, mas as famílias merecem uma explicação e todo o amparo possível. Têm seus direitos e devemos exigir que sejam honrados.

Um acidente como esse comove muito porque somos lembrados de como a vida é mesmo um sopro e o limiar entre ela e a morte é tênue, tênue, tênue…

A consciência plena da mortalidade, que tenho desde a adolescência e me levou a estudos e a livros e livros de filosofia, é o que dá algum sentido à existência mesmo. Mas mesmo assim a morte choca. Ainda mais nas condições em que aconteceram as dos que partiram naquela fatídica noite de novembro.

Gosto de dizer que dor é uma coisa única, pessoal e intransferível, mas que pode ser amenizada quando compartilhada. E parece que isso os colombianos ensinaram a muitos de nós, brasileiros. Foram um exemplo de solidariedade, respeito e carinho.

Também gostei de ver a cobertura de parte da imprensa, uma parte da imprensa que se humanizou aos olhos de muita gente, como tenho dito desde que o acidente aconteceu. Jornalista também é gente. E chora.

Dos que nos deixaram ficam as boas lembranças. São elas que também dão um sentido à vida. Que, como tenho insistido nos meus artigos no jornal, pode ser menos dolorosa se agirmos com humanidade e amor ao próximo.

Que 2017 seja mais leve que 2016. Mais luz e menos escuridão.


João Carlos Assumpção

João Carlos Assumpção é jornalista, documentarista e escritor. Coautor do livro “Deuses da Bola: Cem Anos de Seleção Brasileira” (2014), pela Editora DSOP, foi repórter da Folha de S. Paulo, correspondente do jornal em Nova York, comentarista, chefe de redação e reportagem do SporTV em São Paulo e atualmente é colunista do diário LANCE!. Prepara um curta-metragem sobre a rivalidade entre dois lutadores de muay thai da Baixada Santista e um livro, “Vozes da Periferia”, contando sua experiência nesse universo cheio de histórias humanas e dramáticas e personagens incríveis. Cobriu seis Copas do Mundo e quatro Olimpíadas in loco e é um dos diretores do longa-metragem Sobre futebol e barreiras, filmado durante a Copa de 2010 em Israel/Palestina.

Comentários (20)

  • Leonardo Pires

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    Muito bonito seu texto, todos lamentamos demais o acidente, espero que não aconteça como em Mariana, que a maioria das pessoas deixou para trás logo depois. A vida segue, tem que seguir, a vida anda, mas a dor dos familiares e amigos fica. Espero que olhem para ela. Muitas vidas foram perdidas de uma maneira imbecil.

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    • João Carlos

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      Também espero que a dor dos familiares e amigos dos que se foram não seja esquecida e que não nos esqueçamos de honrar os que se foram e os que ficaram também, Leonardo.

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  • Leonardo Pires

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    Foi o pai do Felipe, aquele do vídeo já dentro do avião, sabe?, aquele que protestou contra o Temer, lembra?, acho que foi ele que falou uma coisa verdadeira, que avião não cai, avião é derrubado. Que os responsáveis sejam todos punidos. Tentam colocar a culpa só no piloto que tá morto e todos os indícios vão contra ele, mas não deve ser o único responsável. Quem autorizou um voo sem gasolina suficiente? Gasolina no limite do limite? O Alan, lateral, falou bem quando falou em ganância. Muito triste mesmo

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    • João Carlos

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      Não foi uma fatalidade, concordo com você. Até por isso as investigações não podem parar e os responsáveis que seguem vivos (o piloto morreu) devem ser punidos. Nada que traga as vidas que se foram de volta, mas repito que não foi uma “mera” fatalidade. E queria entender o porquê de a tal companhia aérea ter tanta força no futebol sul-americano. Como a Chapecoense soube de sua existência quando fez a primeira viagem por meio dela, ainda na Sul-Americana?

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  • Paulo F.

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    Você disse tudo João. O medo da morte. Ele explica tudo. As religiões, a falta de sentido da existência humana, a tentativa de achar um sentido, a falta de controle sobre nossas vidas e nosso destino, a tragédia da Chape impressiona por causa de todas essas coisas e principalmente da morte. Morte, morte, morte. Death.

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    • João Carlos

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      O que há depois da vida aqui na Terra, se é que há algo depois, continua sendo um grande mistério. Que talvez até dê um sentido à nossa existência. Estamos aqui, como disse o Alan Ruschel, para fazer o bem. Cada vez mais. Quem passa por uma experiência dessas sai, da forma que for, fortalecido. Ou pode sair, por mais difícil que ela seja. Ou até por isso também.

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  • Paula Arantes

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    Conforme tínhamos conversado gostei muito do seu texto sobre o Bruno, aquele atleta paraolímpico da vela que foi goleiro do São Paulo e ficou tetraplégico em 2006. Muito bonito o texto. Também gostei do de hoje no jornal sobre o medo de voar. Quando percebemos que não temos controle sobre as coisas e sobre a nossa própria vida ficamos assustados e percebemos o quanto somos pequenos e frágeis. Acho que isso que pegou todo mundo na queda desse avião. Foi um luto coletivo. Meus sentimentos a todos também.

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    • João Carlos

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      Obrigado pelas palavras, Paula, e a vida é mesmo um sopro. Em relação ao Bruno Landgraf achei um sujeito incrível. Que aprender a se reinventar. E a se reinventar. E a se reinventar…

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  • Paula Arantes

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    Não sei se você chegou a comentar sobre a cobertura da imprensa, queria saber o que achou, se não houve uma overdose, era o dia todo essa notícia, foi assim durante quase duas semanas, mas então aparecem novas notícias, como o atentado de Berlim, pelo que vi foi atentado com mais de dez mortos, já esqueceram os de Paris do ano passado, uma notícia engole a outra. Não acha? Eu penso assim. Mundo volátil, notícias que duram pouco. Por isso mencionaram acima Mariana que já foi esquecida. Não sei se por ser do esporte o caso da Chapecoense será diferente. Pode ser que também caia no esquecimento. Ou não? O que acha?

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    • João Carlos

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      Em geral achei boa e respeitosa a cobertura da imprensa. A dimensão da tragédia foi dada também pelos colombianos. Sobre a humanidade o mundo cada vez mais é mais fluido, volátil, como você bem colocou, mas acho que essa tragédia não será esquecida tão cedo, não. Como outras com delegações e equipes de futebol tampouco foram. Mas mais do que a preocupação com a Chapecoense a minha é com as vidas que se foram, os familiares que ficaram e os sobreviventes também. Torço muito por eles.

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  • Paula Arantes

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    Desejar feliz Natal e feliz 2017 para você e para todos os seus leitores também. Aproveitando a oportunidade, feliz ano novo.

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    • João Carlos

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      Muto obrigado, Paula, para você também. Feliz Natal, boas festas e um 2017 mais leve do que foi o ano que está quase acabando e que nos trouxe tantas coisas complicadas. Vide o que se passa na Europa, nos Estados Unidos, na Síria, no Brasil…

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  • Daniel Moreira

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    Olá João, como você vê a reconstrução da Chape? #forçachape
    Torço tb por ela em 2017
    Boas festas a todos
    Daniel Moreira

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    • João Carlos

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      Oi Daniel, também torço pela reestruturação da Chapecoense e acho que ela tem de ser feita aos poucos, as cicatrizes ainda são muito recentes, tem que trabalhar com os pés no chão, mas os olhos nas estrelas, como um amigo meu gosta de dizer.

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  • Alexandre Gonçalves

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    A solidariedade ajuda a diminuir a dor, porém existem momentos em que a solidão e necessária e precisamos ficar conosco. Nós com nós mesmos. Passadas três semanas do muito lamentável acidente outras notícias ganham as manchetes dos telejornais e dos principais noticiários, o que posso dizer que não chegar a ser surpresa. As famílias e os sobreviventes, os sobreviventes especialmente, vão ser comentados em reportagens especiais, quando a Chapecoense for jogar e se reestruturar, mas a vida continua e cada um vai ter que aprender a lidar com sua dor. Só anteontem em Berlim foram mais 12 mortos de maneira estúpida. E o que podemos falar do que se passa na Síria? Uma tragédia humanitária. 2016 foi um ano triste. Que 2017 seja um ano mais leve, acho que você usou esse termo. Um ano mais doce. Menos pesado do que 2016, que foi duro para o Brasil, a Grã-Bretanha, a Europa, o Oriente Médio, a Síria e os Estados Unidos.

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    • João Carlos

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      Tendo a concordar com você. E cada um tem a sua maneira de lidar com a dor. Em relação a 2016, que está terminado, foi mesmo muito pesado. Muito pesado mesmo. No particular e no geral, digamos assim. Que venha 2017… Mais leve, mais leve.

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  • Gustavo Ribeiro

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    Li ontem que Atlético e Cruzeiro são os dois times que mais estão ajudando a Chapecoense. Vamos ver se todos os que falaram fazem sua parte, João. Não é fácil a reconstrução.

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    • Gustavo Ribeiro

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      Falando nisso gostou do Vagner Mancini de técnico?

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    • João Carlos

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      Fácil não é, mas gostei de a Chapecoense recusar a postura de “coitadinha” e continuar fazendo seu trabalho. E deve avaliar os apoios e auxílios que de fato façam sentido, descartando os que não levam a lugar nenhum.

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  • João Carlos

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    Eu colocaria algum com mais bagagem, mais serviços prestados e que pudesse encarar os desafios que esperam a Chapecoense em 2017, será um dos times mais badalados, está num outro patamar depois de ganhar o mundo, o que de fato aconteceu após a tragédia… Mas vamos ver o que o Mancini será capaz de fazer. Não seria a minha escolha, mas entendo a decisão da diretoria da Chapecoense e torço para que dê certo. É um técnico que ainda tem muito a provar, mas é um profissional esforçado e que tem suas competências também. E aproveito para desejar para ele e sua equipe sucesso no ano que vem. Que honrem os que se foram. E os que ficaram também.

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